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O monstro das muitas faces

A multifacetada crise que está a viver o capitalismo tem consequências nom só a nível económico e social. O imperialismo, consubstancial à fase actual do capitalismo, continua sendo fundamental para o saqueio de recursos e o disciplinamento de aquelas zonas e estados que escapam, total ou parcialmente, ao domínio das potências hegemónicas, especialmente os Estados Unidos de América. Actúa, pois, com diferentes recursos nas distintas partes do planeta.

O golpismo em América Latina

A destituiçom do presidente do Paraguai em Junho deste ano engade-se à acontecida há três anos do presidente Zelaya em Honduras, exemplos de golpe de Estado “pseudoconstitucional” que estám a implementar as oligarquias latinoamericanas com o apoio ianque.

Usando de escusa um procedimento incluido na Constituiçom herdeira da ditadura de Stroessner, e violando o direito à defesa, um golpe de Estado parlamentar removeu em menos de 30 horas o presidente Fernando Lugo. Nele estám involucrados desde o Partido Liberal, que formara parte da aliança que desbancou o Partido Colorado, até o mesmo Partido Colorado, sectores da anterior ditadura e a embaixada estadounidense. O novo presidente Franco tem já tomado medidas para amordaçar a televisom pública, crítica com o golpe.

A aquiescência ianque, que conhecia estes planos de destituiçom de Lugo já em 2009 que se vinhérom agora cumprir, é manifesta. As mornas declaraçons de Hillary Clinton concordam com o feito de as transnacionais agrícolas dos EUA Monsanto e Cargill ter grande presença num país onde 2% da populaçom possui o 85% das terras, quando novas leis poderiam questionar o seu domínio agrícola. Também com o feito de a USAID, de onde provém a embaixadora, ter assinado protocolos de colaboraçom com os colorados, e financiar programas or mais de 60 milhons de dólares.

Fernando Lugo aceitou a destituiçom, e a reacçom popular tem sido significativa mas moderada. Isto tem causa no seu labor político: umha atuaçom tímida que nem acometera a reforma agrária, devido à pressom política no país e ao carácter heterogéneo da aliança que o levara ao cargo, e que tem como maior logro a apertura de espaços à demanda social. Igualmente, os países da zona rejeitárom o golpe e mesmo Mercosul e Unasul têm suspendido a participaçom paraguaia.

Se a intervençom dos EUA na regiom tem adoptado este carácter deve-se à mudança na correlaçom de forças, com a presença de governos de esquerda e centro-esquerda que estám a tentar umha articulaçom autónoma respeito os EUA. Assim, as intervençons som de intensidade necessariamente menor da sofrida noutras épocas (Guatemala, Chile, Nicarágua, Panamá…) e mais similar ao acontecido na Venezuela do 2002 no começo da viragem do subcontinente cara a esquerda.

Oriente Médio: intervençom com veu

A implicaçom imperialista tem sido fundamental também no Oriente Médio, onde se produzem as chamadas “revoltas árabes” com início em Tunísia. Naqueles casos onde a revolta se situava fora dos planos das potências estrangeiras e de carácter mais endógeno, como Tunísia e Egito, a sua actuaçom está baseada no encarrilamento da situaçom de forma que nom afectasse os seus interesses e os do aliado fundamental na zona, Israel. Assim, estes países fôrom levados cara abortar possíveis situaçons revolucionárias mediante a remoçom dos antigos aliados e o estabelecimento por “eleiçons livres” de governos islamistas que nom confrontassem com eles: um presidente islamista no Egito baixo supervisom do Exército mubarakista e outro do Ennahda na Tunísia.

Situaçom bem diferente tem acontecido na Líbia. No ponto de mira dos EUA devido ao seu carácter de Estado pouco confiável, a pesar dos últimos entendimentos com as potências ocidentais, a apariçom dumha oposiçom bélica com vencelhos com Al-Qaeda foi armada por estas, incluíndo tropas encobertas ocidentais e das monarquias absolutistas árabes; evoluindo do uso instrumental da ONU com sançons e zonas de exclusom aérea para a agressom militar directa da OTAN combinada com umha guerra de propaganda justificativa: apresentou-se como operaçom humanitária de ataques com alvos estritamente militares mas estes cevárom-se na populaçom civil assim como em infraestruturas básicas: escolas, hospitais, estradas e mesmo abastecimento de água. Um governo pró-ocidental e islamista tem vido à tona supervisado desde a França, implementando a sharia, com privatizaçons e retrocesso em direitos e nível de vida. Aliás, o território é controlado na prática por milícias islamistas e combates sucedem-se por todo o país, num cenário de tipo afegám.

No caminho do isolamento do Irám e com a olhada focada na China, hoje é Síria a seguinte peça a bater: num guiom semelhante ao líbio, estamos perante da apariçom de grupos armados (ELS), financiados e armados polas potências ocidentais e aliados do Golfo, da imposiçom de sançons na ONU com as reticências russas e chinesas, e da propaganda desatada. O recrudescimento dos ataques na mesma capital parecem augurar um cenário de guerra civil de resultado incerto, onde as potências ocidentais exigem a rendiçom do país, retirando um governo hostil aos seus interesses por um outro submisso.

Estamos perante o ronsel das invasons do Iraque e o Afeganistám: frente a invasons terrestres com tropas fundamentalmente estadounidenses, com altos custos económicos e de baixas dos seus soldados, e de amplo rejeitamento interno e mundial, o imperialismo reage fomentando levantamentos armados internos financiados polos seus aliados na zona, assim como pola atuaçom de serviços secretos e “forças especiais” próprias, e extrema o uso dos media mundiais para apresentar “crises humanitárias” que justifiquem as intervençons e desactivem qualquer oposiçom às suas operaçons de espólio.

Assim pois, trás a derrocada da URSS estamos perante um mundo onde se agudizam as operaçons imperialistas por distintos meios, desde a pressom diplomática, o fomento de golpes de estado ou fagressons directas: umha hidra de muitas cabeças por cortar, queimar e enterrar.

 Diego Santório é engenheiro