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Dominarmos o gume o 21 de Outubro

A política e a antipolítica. O capitalismo oferece-nos um espectáculo gigantesco, sim, capaz de fazer os povos aborrecer as campanhas eleitorais, mas essencialmente vazío. Aqueles que possuem quase todos os altofalantes som as mesmas versons do discurso do sistema, os que prometem mas nunca cumprem, os que denúnciam o que depois fam, um teatro contínuo com o objectivo de fazer a gente aborrecer “a política”, identificada com essa mentira exacerbada durante as campanhas. Assim, a antipolítica cresce, a confusom entre participaçom popular e campanha eleitoral medra, a indiferença reina, e o sistema continua a se legitimar, ainda que só quatro em cada dez pessoas ou mesmo menos participem, como acontece nas eleiçons às Cámaras nos EUA.

A debilidade e a fortaleza. Mas a participaçom eleitoral num cenário desenhado para o contrário é precisa. Mais de mil dias passam entre um momento e o seguinte onde a legitimidade sistémica é renovada, e esse dia é um gume afiado. Mais de mil dias onde o capitalismo funciona em toda a sua extensom, onde os que mandam imponhem a sua lei, as suas palavras, as suas coacçons diárias no centro de trabalho e a sua culpabilizaçom das desempregadas, trabalhando nas consciências, desacreditando alternativas, silenciando, e se for preciso, reprimindo com a coerçom quando o consenso nom é suficiente, milheiros de dias onde dizer cidadania é risível. É o momento do gume que é fulcral: é a renovaçom da legitimidade sistémica, a sua “festa da democracia”, o momento que permite vestir a ditadura de classe de Estado neutral e harmónico. Mas com essa legitimaçom renovada vem também a janela de oportunidade: bem sabemos que, tam pronto como se tenta variar o curso preestabelecido, tam pronto como esse momento pode escapar de ser a confirmaçom do já decidido, os lugares onde residem o poder reagem coa intensidade proporcional à ameaça sobre o seu domínio: denúncias de fraude, ameaças de ou atuaçons reais de lock-out patronal ou de desinvestimentos privados num país, ou se tudo isso nom chegar para dobregar e cooptar a esperança, golpes de Estado, invasons e esquadrons da morte. Eis é também onde a fortaleza reside, a pesar da debilidade frente a esses tantos dias: durante um só instante, um momento tam só entre milheiros de dias onde a desigualdade real é lei, as vontades prostituidas e deformadas pola alienaçom podem (começar a) torcer a mao que já escrevera a história.

O momento e o processo. Mas como chegamos a esse momento, como aproveitamos o gume? Como vencermos a alienaçom constatada nesse dia cada mil? Só no colectivo e no organizado é como podemos. Só no processo que acontece nesses dias intermédios onde qualquer reclamaçom é refugada porque a legitimidade concedida querem-na nom retornável, é como podemos. A luita pola igualdade, as mobilizaçons do trabalho, a defesa do público… e a criaçom de consciência e de estruturas populares a elas associadas som o verdadeiramente importante, e se a nossa atuaçom for correta, esse momento será só a constataçom da criaçom de poder popular. E isso só pode acontecer quando temos ferramentas colectivas que mobilizem a raiva e que organizem a classe. As explosons espontáneas, como as combustons rápidas, som efémeras, cooptáveis, facilmente manipuláveis ou desfocáveis; quando nom válvula de escape permitida e inofensiva: a ressaca pode ser a frustraçom e o caldo de cultivo possível para substituir a mentira vigente pola sua filha o caudilho.

A falsidade e a oportunidade. Mas no reino da falsidade, porque participar, porque investir esforços? Que o voto popular fosse umha reivindicaçom da classe trabalhadora, das mulheres e dos sectores populares, algo que os regimes censitários aborreciam já que pensavam que significaria a possibilidade de varrermos os seus privilégios, dá-nos umha pista. Porque indica que aí existe umha fenda pola que se pode meter a mao e tirar para romper o muro: nom a principal, mas sim bem importante. A fenda que, exercitada depois também correctamente nos lugares onde esse momento nos leva, pode ajudar a construir umha verdadeira democracia, que só pode ser exercida num sistema económico diferente, que remate com a exploraçom do homem polo homem.

E neste país a fenda possível, o momento da possibilidade, a oportunidade do gume, chama-se no político BNG, nos milheiros de dias e também este 21 de outubro.

Diego Santório é membro da Mesa Nacional do MGS